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Projeto Nossa história, Nossa gente - “Gosto de Pedreira”, do autor João Kruguer
 Foto: Arquivo 

Em Baltar, trabalhadores preparando área para dinamitar

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Nas pedreiras de Santa Helena está o esforço dos mineradores, profissionais que por décadas se dedicam à extração de matéria bruta. Para retratar o dia a dia o saudoso escritor João Kruguer escreveu o conto “Gosto de Pedreira”, que segue abaixo e é inspirado no espaço onde trabalhou e buscou retratar com sensibilidade o sentimento dos operários.

“Eu e mais uns quarenta homens trabalhamos em uma pedreira calcária. Minha ocupação, bem como a de quatro outros, consiste em perfurar e dinamitar a rocha. Os demais são todos marroeiros e se ocupam em escavar os matacões, no propósito de facilitar a feitura do cimento. 

São, na totalidade, criaturas fortes, de modos e feições rudes. Varam o dia pitando fumo de corda, enrolado em bráctea seca de milho, e cuspindo xinges à vida e aos patrões. Os marroeiros detestam a pedreira. Se a gente lhes pergunta por que, respondem que lá o trabalho é bruto, o sol é brabo e o ganho quase um nada. E ajuntam, ainda, que lá sempre está rondando a triste perspectiva de aleijar-se para o resto da vida. É uma verdade. Em tudo isso eles estão com inteira razão. Não obstante, eu nunca estou com o modo de pensar deles. Gosto da pedreira. 

Gosto da pedreira porque ela está aninhada entre montanhas, cada uma mais soberba do que a outra. Gosto da pedreira, porque lá estou sempre nos altos – no caminho da brisa e bem junto às andorinhas. Gosto da pedreira por que de lá, no outono, a gente vê a mão do vento ondear a flor do catingueiro, que medra nas encostas. Gosto da pedreira porque lá, sobre um frágil andaime engastado na rocha calcária, estou imperturbado e tenho o dia inteiro para contemplar o céu, as nuvens e as florinhas silvestres das bordas do paredão. Gosto da pedreira porque lá o trabalho, o sol, o frio e a chuva enrudecem os homens, temperando-os para as lutas da vida. 

 Gosto da pedreira, mormente, porque sou poeta. Se na pedreira o ganho é quase um nada, a mim em pouco afeta. Os poetas não carecem de muito. A eles bastam a claridade da aurora, a fragrância das flores e a doce lembrança de uma mulher”.

 

 

 

 

 

Coluna publicada na página 21, da edição nº 381, da Gazeta de Votorantim, de 12 a 18 de setembro de 2020.



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