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12/08/2019 - 14:01
Um educador francês que revolucionou em Votorantim

Joseph Jubert ficou na cidade entre 1911 e 1913 e educou a família dos operários utilizando a pedagogia libertária
 Foto: Reprodução/CDAPH-USF/ BBC News Brasil 

Joseph Jubert Rivier

 

Valdinei Queiroz

 

Nos últimos dias, o professor francês Joseph Jubert Rivier, que nasceu em Lyon (França) e faleceu em São Paulo no ano de 1945, foi protagonista de artigos publicados nos portais UOL, BBC News, entre outros. Mas qual é a ligação dele com Votorantim? A seguir, a reportagem da Gazeta de Votorantim vai relatar, por meio de livros, artigos científicos, citações e entrevistas, suas ações quando Votorantim ainda era distrito de Sorocaba.

Para contar esta história, é necessário voltarmos ao tempo: no final do ano de 1911 (durante a República Velha). Joseph Jubert chegou em Sorocaba/Votorantim e esteve à frente da defesa de operários que trabalhavam nas duas localidades e também trabalhou como professor na Escola Moderna, movimento pedagógico progressivo de inspiração anarquista, que deu origem à pedagogia libertária.

Segundo a pesquisadora Marcia D’Angelo, que escreveu dissertação de mestrado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), cujo título “Caminhos para o advento da Escola de Aprendizes Artífices de São Paulo entre 1910 e 1930: um projeto das elites para uma sociedade assalariada” (2000), Jubert educava os operários das fábricas Votorantim e Santa Rosália (Sorocaba), com o objetivo de ensiná-los, sobretudo seus filhos, uma educação com viés crítico, científico e igualdade entre homens e mulheres.

Chegou na cidade em função de uma condenação que ele sofreu em Bragança Paulista/SP. Quem o processou foi a Igreja Católica e os fazendeiros daquela cidade, que não concordavam com o método de ensino de Jubert, em que meninos e meninas estudavam juntos (até então uma inovação), defendia o fim dos exames e dos castigos e, em especial, uma educação com pouco espaço para o ensino religioso.

Nessa ação do padre e seus aliados, Jubert foi condenado a cinco meses de prisão e ao pagamento de uma multa de cerca de quatrocentos mil réis, um valor alto à época e, praticamente, impossível de ser obtido por um trabalhador. Diante deste cenário, veio parar em Sorocaba/Votorantim, já que a cidade contava com grandes tecelagens e um amplo comércio de gado graças à ferrovia que a ligava a Santos. Ele passou então a dar aulas, por três anos, em uma Escola Moderna que já funcionava por aqui.

 

Escola Moderna e Liga Operária

A Escola Moderna, de acordo com o escritor e historiador Carlos Cavalheiro, que publicou diversos livros sobre a história dos operários de Votorantim e região, foi fundada em 1901 na cidade de Barcelona, na Espanha, por um grupo de ativistas anarquistas, pedagogos e apoiadores, entre eles Frances Ferrer e Anselmo Lorenzo.

O método de ensino tinha como finalidade educar a classe trabalhadora num ambiente racional, laico e não coercivo. “A Escola Moderna proporcionava aos seus alunos oportunidades de reflexão sobre os mais variados assuntos relacionados com a realidade cotidiana sob bases científicas”, diz Cavalheiro.

De acordo com a pesquisadora Marcia D’Angelo, essas escolas funcionavam todas as noites, no horário das seis e meia às nove horas, compreendendo as seguintes matérias: leitura, escrita, linguagem, aritmética e noções de geometria, desenho, higiene, educação moral e cívica e aplicações das ciências físico-naturais.

O programa dessas disciplinas, explica a pesquisadora, era especialmente dirigido ao aluno operário. Desta forma, os exercícios escritos e orais englobavam “qualidades, emprego, propriedades de corpos e objetos de uso frequente nas artes e indústrias”. Os alunos exercitavam o estudo da língua por meio de redação de cartas, recibos e composições sobre a sociedade, a família e a vida operária.

Antes de ser criada a primeira Escola Moderna tanto em Sorocaba como em Votorantim, o jornal O Operário divulgou reportagem a respeito do surgimento da Liga Operária de Sorocaba, cujos estatutos foram aprovados em 18/11/1911. Refere-se a uma associação que lutava por melhores condições de trabalho, salário mínimo e definição de jornada máxima, em um período no qual as leis trabalhistas ainda não existiam. Faziam parte o diretor e redatores do jornal. A Liga foi responsável pela criação da Escola Moderna para crianças operárias, tendo como professor Joseph Rivier, também colaborador do jornal. O jornal O Operário, datado de 14/4/1912, informou a “criação de uma Escola Moderna em Votorantim, para ambos os sexos e outra em Santa Rosália (Sorocaba)”.

Em 1912, Joseph Rivier esteve à frente da defesa de operários que trabalhavam em Votorantim, onde, após a confusão inicial, um promotor de justiça tentou expulsá-lo da cidade, como explica o pesquisador Valdelice Borghi Ferreira, em seu estudo intitulado “O movimento operário e a educação na imprensa sorocabana na primeira república” (2009). Como em outras cidades que passou pelo Brasil, continuou a denunciar os abusos praticados por parte de pessoas ligadas a industrialização e ao capitalismo que vinha se mostrando cada vez mais presente.

Em artigo no jornal A Lanterna, de 1912, Jubert escreveu sobre as ameaças de deportação que sofria de forma constante, mesmo que ele tivesse cidadania brasileira e fosse apto a votar. Ainda em 1912, relatou a exploração de funcionários de industrias em Votorantim, até que, em 1913, ele sofreu um novo processo e perseguição, chegando a ser preso durante quatro meses e condenado a pagar uma multa. Após sair da prisão e relatar tudo o que passou dentro dela (torturado por vários dias), exatamente um ano depois, Joseph Rivier foi encontrado como professor de outra Escola Moderna, mas desta vez em Bauru/SP.

 

Greve de 1913

A passagem do educador Joseph Rivier pela cidade fez com que ocorresse uma das mais importantes greves da Fábrica Votorantim, em 1913, na qual os operários recusavam-se a continuar a trabalhar diante das atrocidades e arbitrariedades do diretor-gerente que o Banco União, proprietário da Fábrica, mandava vir da capital.

Segundo o historiador Carlos Cavalheiro, a greve teve início em princípios de dezembro daquele ano, mais precisamente no dia 2, quando às 8 horas da manhã os operários declararam greve.

Além de cortar o salário dos operários, como explica Cavalheiro em sua obra “Memória Operária” (2009), o gerente iniciou a cobrança de seis mil réis dos trabalhadores que fossem transportados para as suas residências em Sorocaba. “Isso porque não havia mais habitações disponíveis para os operários em Votorantim. Com isso, o gerente começou a aumentar o preço das passagens e fretes da Viação Férrea Votorantim, prejudicando, inclusive, as transações comerciais da Fábrica com fornecedores de Votorantim, Itupararanga e Piedade”, esclarece o historiador.

No dia 20, há 18 dias desde o início da greve, o jornal Cruzeiro do Sul publicou nota em que informava que os operários não esmoreciam, mantendo-se firmes na luta pela vitória da greve. Em reuniões dos operários, ficou deliberado o envio de comissões a várias localidades do Estado para que se angariassem meios para a subsistência dos grevistas e suas famílias.

De acordo com Cavalheiro, estranhamente, esta foi a última notícia encontrada a respeito da greve. “Não se encontrou nenhuma nota que comunicasse o fim da greve. Uma greve que se estendeu por tantos dias e não teve o registro de seu fim. Um capítulo da memória operária que espera por um ponto final”.

 

Objeto de pesquisa na UFSCar

Sua trajetória de luta por igualdade está sendo analisada neste momento por uma estudante de licenciatura plena em pedagogia do campus Sorocaba da Universidade Federal de São Paulo (UFSCar). “Na verdade, estou pesquisando sobre as Escolas Modernas, onde ele (Joseph Jubert) teve participação direta e importante em Sorocaba e Votorantim, comenta Naara Gonçalves de Alencar, 21 anos.

Segundo ela, a pesquisa, sob orientação do professor Marcos Francisco Martins, se trata de uma iniciação científica, com duração de um ano. Tem início na metade de agosto e o término em agosto de 2020. “Meu objetivo é que, ao longo da pesquisa, as informações que conseguir se transformem no meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso)”, diz Naara.

A estudante em pedagogia na UFSCar escolheu este tema justamente pelo motivo de ela já estudar sobre a educação anarquista, desde 2017. “Em algumas leituras, descobri que houve algumas experiências libertárias na região de Sorocaba e uma em Votorantim, mas há poucos registros sobre elas, o que atiçou ainda mais minha curiosidade para fazer um levantamento histórico e entender como, quando e por que elas ocorreram”, argumentou.

 

Personalidade do professor francês

 Segundo artigo de Vinícius Pereira, publicado na BBC News Brasil, Jubert nasceu em Lyon por volta de 1876 e veio ao Brasil ainda criança, em um período de intensa imigração de trabalhadores assalariados europeus, que chegavam ao País para substituir a mão de obra escravizada nas fazendas.

“Ele era contra o poder do Estado, da Igreja e da propriedade privada. Mas se declara um livre pensador”, afirma Sandra de Souza, que estudou a história de Jubert durante o mestrado pela Universidade São Francisco (USF).

Jubert morreu por volta de 1945, na capital paulista, após uma vida marcada pela contestação do poder. Mesmo com a trajetória de lutas a favor dos trabalhadores e da educação, histórias como a de Joseph Jubert permanecem escondidas do cenário nacional. “Há um trabalho de ocultamento de memória de lutas, do poder vigente no Brasil, há muito tempo”, analisa Ricardo Rugai, entrevistado pela BBC News Brasil.

 

 

 

Reportagem publicada na página 05 da edição nº329, do jornal Gazeta de Votorantim, de 10 a 16 de agosto de 2019.

 



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